Ronaldo, eu quero que você acabe com meu time. Eu quero sofrer por tua causa e ter orgulho disso, tipo o marido da mulher que teve um caso com o Chico Buarque. Quero que você vença meu time sem piedade. Que o humilhe. Que o extermine. Quero que você receba a bola pelo meio, dê uma pedalada no primeiro marcador, gire sobre o segundo com um toque de letra, dê um drible da vaca no terceiro, aplique um chapéu no zagueiro e vença o goleiro, pobre e desesperado goleiro, com um elástico. Aí eu quero que você pule as placas de publicidade e mande minha torcida calar a boca. Que a mande tomar no cu dela. Bem no meio do cu dela.
Quero que você dê uma cotovelada no craque do meu time, esse sujeito que fica opaco perto de você. Quero que você pise no tornozelo do meu capitão. Quero que você deite, role e deite de novo só para poder rolar outra vez no campo do meu time. Na casa dele. No lar, doce lar dele.
Quero ter 80 anos e lembrar disso, Ronaldo. Quero contar pros meus netos. Quero lembrar com raiva e satisfação. Quero te ver fazer o máximo possível que um jogador pode fazer. Quero e exijo ser testemunha ocular da tua genialidade.
Eu pensava que Romário era maior do que Ronaldo. Coisa nenhuma. Ronaldo é maior do que Romário e do que Zidane e do que Zico e do que Ronaldinho Gaúcho e do que Platini e do que Van Basten. Porque não se mede o tamanho de um jogador só pela qualidade dele. Mede-se pela história. O futebol é uma forma aprimorada de se fazer literatura, cinema e teatro. Justamente por isso, o que vale é a personagem. E o Ronaldo é o maior desde Maradona.
Ronaldo é uma personagem moderna, sem idealizações, com defeitos que gritam tão alto quanto as qualidades. Ronaldo destrói o joelho uma, duas, três vezes. E sempre volta. Ronaldo ganha uma Copa para depois jogar outra na lata do lixo. Ronaldo anda com as mulheres mais gostosas do país para depois parar na delegacia por causa de um travesti. Ronaldo é brasileiro no sentido de dar murro em ponta de faca e amassar a faca.
Dizem que a Medéia, com sua pulsação de fêmea vingativa, foi a primeira personagem humana da literatura. Foi a primeira a desenhar seu destino, a não ser simplesmente guiada por ele. Pois Ronaldo é a evolução máxima dela. Ronaldo é uma personagem humana ao ponto de nenhuma arte saber representar. Ronaldo é irrecriável.
Ronaldo me faz ter simpatia pelo Corinthians. Pequena, silenciosa, quase secreta simpatia. E faz o mesmo contigo. Sei que faz. Pequena, silenciosa, quase secreta, mas uma simpatia. Mesmo assim, uma simpatia.
terça-feira, 28 de abril de 2009
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