Dizem que um jovem que não é de esquerda não tem coração. E dizem que um adulto que é de esquerda não tem cabeça. É um processo natural: conforme envelhecemos, ficamos chatos, mais ortodoxos, mais tradicionais. Perdemos o idealismo. Trocamos a esquerda pela direita. Mas comigo aconteceu o contrário: com o engatinhar dos anos, migrei da direita latifundiária rumo à esquerda acéfala (ops, quase uma redundância).
Eu era uma criança estranha. Em 1989, com sete anos, lembro de escrever os nomes dos candidatos à presidência em um caderno e acompanhar, com raro entusiasmo, o progresso deles nas pesquisas eleitorais. Por mais que o jingle "dois patinhos na lagoa, vote Afif 22" me emocionasse, era o Collor quem eu curtia mais. Influência, certamente, dos meus pais, que votaram no bonitão. No dia da eleição, eu perambulei de bicicleta pela rua Bolívia, em Canoas, com uma bandeira do Collor na MAGRELA. Quase apanhei de uma vizinha gigante, de uns 14 anos, simpatizante do Lula.
Com o Collor eleito, rolou um arrependimento lá em casa. Meus pais não curtiram a ideia de ver a poupança deles surrupiada. E eu percebi que tinha algo estranho no ar. Certo dia, decidi que escreveria uma carta ao presidente. Não lembro o teor dela. Devo ter pedido coisas simples, como um autorama e a paz mundial.
Mas foi a efervescência político-social-filosófico-cultural da Escola Estadual de 1º Grau Vasco da Gama que me fez mergulhar na política. Tudo passou pelo professor Adão, que dava aula, ao mesmo tempo, de Educação Física e Educação Artística. Interdisciplinariedade, saca? Em uma dessas aulas, ele propôs que simulássemos um debate eleitoral na sala de aula, com contagem de votos e tudo. Os alunos interessados escolheriam um dos candidatos à presidência para representar. O pequeno Alexandre se empolgou, mas não em tempo de escolher um dos grandões da disputa. Mas ele não titubeou. Levantou o dedo, recebeu o olhar do professor Adão e avisou a todos:
- Eu vou ser o Espiridião Amin.
A galhofa não poderia intimidar um entusiasta da política. Fui lá para a frente da turma e fiz meu discurso. Prometi acesso universal à saúde, criação de quadras polidesportivas para livrar os jovens das drogas, uma política econômica voltada ao social, um monte de ideias que o verdadeiro Espiridião Amin jamais teria. Fui bem. Superei Lula. Superei Éfe Agá Cê. Superei o Brizola. Mas faltava o Enéas. Aí veio um moleque dos infernos, começou a imitar o barbudo e prometeu fechar o Inter, demolir o Beira-Rio e tirar matemática do currículo escolar. Ganhou fácil. Sofri nas mãos de um populista.
Dias depois, eu acompanharia o professor Adão em uma passeata pró-Olívio Dutra em Canoas. Ele, sua esposa (professora Vera, que também dava aula no Vasco da Gama), meu irmão e eu. Gostei daquilo. Gostei daquela gente tirando o marasmo do corpo. Gostei do desejo por mudança. Bebi uma cachaça que jamais tirei do corpo.
O professor Adão acabaria punido pelo entusiasmo político que colocou em seus pupilos. No ano seguinte, incomodados com as aulas deles (eram muito ruins), alguns alunos se mobilizaram para pedir a saída dele. Eu fiz parte do movimento. A professora Vera, em seu último dia na escola, disse, olhando para mim, que se sentia traída por um amigo. Aquilo doeu. O casal de professores foi para Bagé, se não me engano, onde acabariam se separando pouco depois, consequência da relação entre o Adão e uma aluna cuja idade eu comemoro não saber.
Eu fui uma criança sem coração, mas mudei quando jovem, e agora sou um adulto sem cabeça. Em parte, devo isso ao Collor. Em parte, ao Espiridião Amin. E muito ao professor Adão, que tinha suas boas intenções e, no frigir dos ovos, também era um adulto sem cabeça.
quarta-feira, 3 de fevereiro de 2010
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1 comentários:
excelente texto. na verdade, hoje em dia não existe mais esquerda, nem direita. acho que nem mais na teoria. dá a impressão que é tudo uma coisa só.
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