quarta-feira, 14 de abril de 2010

Bigode por bigode, Chico supera Machado


Eu tinha uns 17 anos quando fechei Memórias Póstumas, soltei um "puta merda!", vi meus pelos do braço arrepiarem e não controlei mais meus olhos. Chorei mesmo, velhinho. Aí você, maldoso que é, vai dizer: "Baita MARICAS esse Alliatti". Não, não. Não é isso. Porque não foi a história que me fez chorar. Foi a genialidade do autor. Eu chorei como reverência ao gênio Machado de Assis, chorei por saber que tinha acabado de me envolver com uma obra de arte suprema, por saber que aquilo nunca mais sairia de mim.

Dia desses, tava vendo os últimos DVDs daquela coleção toda bonitona do Chico Buarque. Um deles é dedicado às canções infantis dele. E eu tive que me segurar, com toda a força, para não chorar feito um idiota. De novo, pela genialidade do sujeito, pela capacidade absurda de criar algo tão superior, pela preciosidade matemática do cara, essa capacidade maluca de somar palavra com palavra, multiplicar versos e criar genialidade.

Genialidade mesmo. Machado é gênio. Chico é gênio. E aí ficamos pensando, eu, meus botões e minhas paranoias: ninguém, em 510 anos de Brasil, fez mais do que esses dois caras em cultura. Não houve artistas superiores a eles. Não dos que eu conheço, em minha abençoada ignorância: nem Glauber Rocha, nem Guimarães Rosa, nem Caetano Veloso. Talvez o Thedy Corrêa, mas aí é outro tipo de compreensão humana (NOT!!!).

Mas, entre Machado e Chico, eu fico com o segundo como o maior de todos. Tá, o Machado é FODÃO. Memórias Póstumas, Dom Casmurro e Quincas Borba entram fácil na lista dos dez maiores romances brasileiros. E são todos do mesmo PINTA, que também fez dezenas de contos que chegam a irritar de tão bons. E ponto final. No teatro e na poesia, foi apenas mais um.

Proporcionalmente, o Chico é para a música o que o Machado é para a literatura. Proporcionalmente. Tem o dedo do Chico nas melhores músicas políticas desse país. Também nas melhores músicas, argh, românticas, na falta de termo melhor. Mas o sujeito também fez absurdos de inventividade com música do cotidiano (falar sobre Construção é chover no molhado). Chico é um burguês, podre de rico desde sempre, que fez música de favela, com cheiro de feijão, com jeito de povo. Isso é lindo, malandro.

E não parou na música. Fez quatro peças fundamentais, Roda Viva, Calabar, Gota D'Água e Ópera do Malandro, fora a musicalização do Morte e Vida Severina, que é de chorar no cantinho. E mandou bem também na literatura, mesmo que Benjamim seja um pouco sem pé ou cabeça. De quebra, teve três livros adaptados ao cinema.

Se Chico tivesse ficado na música, seria do tamanho do Machado. Mas ele teve a sorte de viver em uma época que lhe permitiu ir além. E teve genialidade de sobra para aproveitar isso. É mais completo do que Machado. Logo, é maior.

Na real, essa discussão não vale nada. Negócio é analisar o bigodão que cada um deles cultivou. Bigode por bigode, Chico também supera Machado.

1 comentários:

Mayra Siqueira disse...

Nada supera o bigodão de Machado, meu caro. Não me convenceu, mas nem de longe...