quarta-feira, 3 de fevereiro de 2010

Eu fui Espiridião Amin por um dia

Dizem que um jovem que não é de esquerda não tem coração. E dizem que um adulto que é de esquerda não tem cabeça. É um processo natural: conforme envelhecemos, ficamos chatos, mais ortodoxos, mais tradicionais. Perdemos o idealismo. Trocamos a esquerda pela direita. Mas comigo aconteceu o contrário: com o engatinhar dos anos, migrei da direita latifundiária rumo à esquerda acéfala (ops, quase uma redundância).

Eu era uma criança estranha. Em 1989, com sete anos, lembro de escrever os nomes dos candidatos à presidência em um caderno e acompanhar, com raro entusiasmo, o progresso deles nas pesquisas eleitorais. Por mais que o jingle "dois patinhos na lagoa, vote Afif 22" me emocionasse, era o Collor quem eu curtia mais. Influência, certamente, dos meus pais, que votaram no bonitão. No dia da eleição, eu perambulei de bicicleta pela rua Bolívia, em Canoas, com uma bandeira do Collor na MAGRELA. Quase apanhei de uma vizinha gigante, de uns 14 anos, simpatizante do Lula.

Com o Collor eleito, rolou um arrependimento lá em casa. Meus pais não curtiram a ideia de ver a poupança deles surrupiada. E eu percebi que tinha algo estranho no ar. Certo dia, decidi que escreveria uma carta ao presidente. Não lembro o teor dela. Devo ter pedido coisas simples, como um autorama e a paz mundial.

Mas foi a efervescência político-social-filosófico-cultural da Escola Estadual de 1º Grau Vasco da Gama que me fez mergulhar na política. Tudo passou pelo professor Adão, que dava aula, ao mesmo tempo, de Educação Física e Educação Artística. Interdisciplinariedade, saca? Em uma dessas aulas, ele propôs que simulássemos um debate eleitoral na sala de aula, com contagem de votos e tudo. Os alunos interessados escolheriam um dos candidatos à presidência para representar. O pequeno Alexandre se empolgou, mas não em tempo de escolher um dos grandões da disputa. Mas ele não titubeou. Levantou o dedo, recebeu o olhar do professor Adão e avisou a todos:

- Eu vou ser o Espiridião Amin.

A galhofa não poderia intimidar um entusiasta da política. Fui lá para a frente da turma e fiz meu discurso. Prometi acesso universal à saúde, criação de quadras polidesportivas para livrar os jovens das drogas, uma política econômica voltada ao social, um monte de ideias que o verdadeiro Espiridião Amin jamais teria. Fui bem. Superei Lula. Superei Éfe Agá Cê. Superei o Brizola. Mas faltava o Enéas. Aí veio um moleque dos infernos, começou a imitar o barbudo e prometeu fechar o Inter, demolir o Beira-Rio e tirar matemática do currículo escolar. Ganhou fácil. Sofri nas mãos de um populista.

Dias depois, eu acompanharia o professor Adão em uma passeata pró-Olívio Dutra em Canoas. Ele, sua esposa (professora Vera, que também dava aula no Vasco da Gama), meu irmão e eu. Gostei daquilo. Gostei daquela gente tirando o marasmo do corpo. Gostei do desejo por mudança. Bebi uma cachaça que jamais tirei do corpo.

O professor Adão acabaria punido pelo entusiasmo político que colocou em seus pupilos. No ano seguinte, incomodados com as aulas deles (eram muito ruins), alguns alunos se mobilizaram para pedir a saída dele. Eu fiz parte do movimento. A professora Vera, em seu último dia na escola, disse, olhando para mim, que se sentia traída por um amigo. Aquilo doeu. O casal de professores foi para Bagé, se não me engano, onde acabariam se separando pouco depois, consequência da relação entre o Adão e uma aluna cuja idade eu comemoro não saber.

Eu fui uma criança sem coração, mas mudei quando jovem, e agora sou um adulto sem cabeça. Em parte, devo isso ao Collor. Em parte, ao Espiridião Amin. E muito ao professor Adão, que tinha suas boas intenções e, no frigir dos ovos, também era um adulto sem cabeça.

terça-feira, 2 de fevereiro de 2010

Estética do Frio ou Como Tirar Lições de Nova Tramandaí

Estimado presidente,

eu, como vosso eleitor, tomo a liberdade de dar um pitaco em um projeto que é todo bonitão, todo garboso, mas cuja praticidade eu posso acelerar. Esqueça o Vale-Cultura, Lula. Esse país não precisa disso. Não é assim que vamos nos tornar mais cultos. Nós precisamos, meu caro, é de frio.

Guarde o dinheiro do Vale-Cultura para atos mais nobres – sei lá, comprar aliados no Senado, retribuir favores às empreiteiras, criar obras eleitoreiras para sustentar a Dilma. Esse tíquete aí é inútil. Os europeus não precisaram dele para firmar a base da cultura ocidental. Eles só aproveitaram o frio. Bob Dylan, revoltado e encasacado lá em Minnesota, virou um gênio. Vivesse ele em Floripa, necas; em Porto Alegre, só se fosse entre junho e agosto. Mesmo assim, tempo suficiente para ser no máximo um Nei Lisboa – em vez de “whatever colors you have in your eyes, I’ll show them to you and you’ll see them sinhe”, cantaria “a vaca foi pro brejo e atolou”.

Eu realmente penso que a inteligência, o raciocínio, a produção de ideias, tudo isso é prerrogativa do frio. São muito, mas muito FODÕES os caras que criam arte no calor. Passei parte do verão lendo aqueles três livros da autobiografia do Gorki. São bons, mas não geniais. E só são bons porque foram escritos na Rússia. Se hoje, 2 de fevereiro de 2010, o Gorki parasse na Lancheria do Parque, pedisse uns guardanapos praquele garçom careca-e-cabeludo-ao-mesmo-tempo e tentasse escrever alguma coisa assim, acabaria tomando oito jarras de suco de limão em vão. Tempo perdido.

O calor produz comédia. O frio produz drama. O drama é superior à comédia. Música triste é melhor do que música alegre, infelizmente. E Chico Buarque, por tudo isso, é o cara.

Estimado Lula, entrei em uma digressão. Parei. Volto ao ponto de que o senhor deve investir no frio. Comprar ar-condicionado. Distribuir gelo aos pobres. Uma vez, em Nova Tramandaí (bela praia: o amigo deveria convidar Dona Marisa e dar uns mergulhos por lá), enquanto eu esperava um ônibus, bateu uma brisa fresca. Uma mulher disse a outra: “Como tá esfriando nos últimos anos... Deve ser porque aqueles incebergs tão tudo derretendo”. É uma pena o raciocínio dela não fazer o menor sentido. Bombardear a Antártida seria até prático.

Caro presidente, está dada a dica. Não sei como o senhor fará para diminuir a temperatura de nosso país, mas é uma boa pedida. O Duda Mendonça pode dar uma ajuda. Até que o problema seja resolvido, esquece o Vale-Cultura, vai. Cria o Vale-Shopping, de repente. Porque é aquilo: lá, o ar-condicionado é dos bons.

quinta-feira, 20 de agosto de 2009

Peguei a mãe do meu melhor amigo

Eu tinha uns 12 anos. O Gustavo, uns 11. Tínhamos uma brincadeira costumeira nas tardes de domingo, com a rua pouco movimentada. Parávamos na frente da casa dele e fazíamos uma competição de carros. Imaginária. O primeiro que passava era de um. O segundo, de outro. Aí a gente fazia a contagem no final. Melhor de cinco.

Um dia, culpa dos hormônios, resolvemos fazer isso com mulheres. A primeira que passasse seria do Gustavo. A segunda seria minha. Utilizaríamos critérios honestos para dar a vitória a um ou a outro. Não nos sacaneávamos. Tínhamos fair-play.

Após segundos de tensão, ela apareceu.

Morena.

Morena de cabelos compridos.

Morena de cabelos compridos e seios fartos.

Uma deusa. Usava um top, aquele tomara-que-caia que, na real, significa tomara-que-caia-em-cima-de-mim-e-não-saia-nunca-mais. Tinha uma calça, talvez de algodão, que desenhava as nádegas. Perfeita. O Gustavo fizera um golaço. Era quase inalcançável.

Quase.

Foram instantes que redimensionam a ideia de eternidade. Gustavo, todo orgulhoso, cantava a vitória antes do tempo. Vibrava. Quase dava cambalhotas. Grave erro. Porque ela apareceu. Ah, ela apareceu...

Ela usava calça jeans, tênis, uma camiseta sem graça, daquelas de domingos em que se vai no máximo até a esquina. Ela caminhou alguns centímetros e logo parou para nos olhar. Ela falou conosco. Ela abriu a porta e caminhou na nossa direção. A aproximação. Tudo que Gustavo sonhara com a mulher dele acontecia com a minha. Mas haviam um porém.

Havia um porém, dos maiores poréns já criados, no fato de ela era a mãe do Gustavo.

Peguei a mãe do meu melhor amigo. Nem hoje, nem ontem. Faz tempo. E não peguei de verdade. Imaginário. Mas foi uma vitória. Foi uma virada história. Foi uma reviravolta sem precedentes.

E nunca mais brincamos daquilo.

segunda-feira, 20 de julho de 2009

Eco, do latim ao Google

O Umberto Eco é um chato legal ou um legal chato, dependendo do gosto do leitor. Quando li "O nome da rosa", há uns sete ou oito anos, lembro que perdi a paciência e pedi emprestado um dicionário de latim para a professora Vanda, então minha chefe na lendária Over the Rainbow, escola de inglês de Canoas onde eu dava aula e que, ao contrário do que indica seu nome, não era voltada ao público homossexual.

Eco parte da premissa de que o leitor é, desculpem o termo, tão punheteiro quanto ele. Se não estou enganado, "O nome da rosa" termina com uma frase relativamente gorda em latim. Tradução? Que nada. Te vira, mané...

Leio "A misteriosa chama da rainha Loana", também dele. Em vez do dicionário de latim, uso o Google para não ficar boiando. No caso, nem é o pedantismo do escritor que força uma ou outra pesquisa. É que o livro é uma autobiografia disfarçada (e muito interessante) dele. O Eco curte esses esquemas de semiologia e passeia por símbolos e referências do tipo durante toda a obra. Só que são coisas da infância dele - logo, já enterradas no passado.

Bom livro.

sábado, 18 de julho de 2009

Essência

Billie Holiday veio ao mundo e saiu dele há 50 anos, lembrados ontem, com a missão de ser a síntese máxima do Jazz. Não tanto musicalmente, porque ela não compunha, e o gênero meio que exige um talento que ultrapasse a beleza da voz. Ela foi a essência do Jazz pelo que foi como pessoa. The Lady resume o sofrimento dos jazzistas.

Billie Holiday sofreu de tudo. E colocou cada pedacinho de dor em uma voz sem igual. Ela cantou lágrimas e chorou notas. É um ícone sem tamanho.

O mais genial na história dela é que, com uns 12 anos, a pequena Billie trabalhava como faxineira em um bordel só para poder passar algumas horas do dia em uma espécie de sótão escutando uns discos perdidos do Louis Armstrong que estavam por ali. Isso tem cara de lenda, eu sei, mas ela própria conta em sua autobiografia - Lady sings the blues.

A cantora que foi presa por ser abusada sexualmente (sim, isso mesmo), que passou a vida apanhando, que foi expulsa de bares e impedida de entrar em hotéis por ser negra, que se drogou e bebeu como só o Jazz exige, morreu jovem, com 44 anos, não por acaso vítima de cirrose.

Foi para o mundo o que a Elis Regina foi para o Brasil, só que maior - seja na voz, seja na dor.

quarta-feira, 15 de julho de 2009

Ei, você aí

O torcedor de futebol, como ser individual, é uma chatice. Ele é paranóico, é ranzinza, acha que o mundo conspira contra o clube dele. Acha até que o clube dele conspira contra o clube dele. Ele torna o futebol menos divertido. Já a torcida, como entidade coletiva, é genial. Eu nunca vi um estádio se juntar em uma voz única para pedir uma substituição que não fosse certa. A torcida é mais inteligente do que o treinador. A torcida sabe muito mais de futebol do que a imprensa. Mas o torcedor, não. O torcedor perde força quando está separado do coletivo. Ele é uma partícula que morre de carência cerebral quando isolada do resto.

A torcida, como entidade coletiva, manifesta sua genialidade nos cantos.

- Arerêeee, gaúcho dá o cu e fala tchê.

Absolutamente brilhante, não?

No dia em que o Inter ganhou o Mundial, passou um carro ali pela Cidade Baixa com uns oito colorados dentro, todos cantando:

- Ô tricolor, vai se fudê, vai assistí o DVD da Série B.

No Inter x Corinthians, quem sofreu foi o Ronaldo.

- Ei, você aí, avisa pra Fiel que o Ronaldo é travesti.

- Puta que pariu, o Ronaldo deu o cu pro Clodovil.

No Grêmio x Corinthians, primeiro jogo depois da morte do travesti no qual o Fenômeno quase deu uma chinchada, a galera não perdoou:

- Ronaaaaaaaldo, viúuuuuuvo, Ronaaaaaaldo, viúuuuvo.

Mas nós perdemos feio para os cariocas. A Geral do Grêmio acha que é a melhor torcida do Brasil, mas passa longe das torcidas do Rio, especialmente a do Flamengo. A genialidade dos rubro-negros foi eternizada no primeiro jogo contra o Vasco depois da morte do Dener. Foi assim:

"Ô vascaíno, por que estás tão triste?
Mas o que foi que aconteceu?
Foi o Dener que bateu o carro, quebrou o pescoço e depois morreu
Ei, você aí, o Dener já se foi, agora é o Valdir"

Criatividade proporcional à maldade. Comemorar a morte do Dener não bastava: tiveram que prever a morte do Valdir também.

segunda-feira, 13 de julho de 2009

Elair morreu de amor

"Pessoas morrem porque estão com o coração partido. Acontece todo dia e vai continuar a acontecer, até o fim dos tempos"
Paul Auster, "Homem no escuro"

Elair morreu de amor. Tinha 25 anos. Quem contou foi dona Roma, com a credibilidade de seus 80 anos.

- Elair morreu de parada cardíaca - alguém disse.

- Não foi nada disso. Ela morreu de amor - retrucou Roma.

Elair amava Paulo, que amava outras. Paulo fugiu. Elair ficou. Aos 25 anos, ela ficou. Só. Sem Paulo. Sem o homem de sua vida, dessa vida que acabaria dias depois.

Elair chorou. Aí Elair sorriu e disse que iria seguir a vida. Aí Elair viu que estava enganando a todos, a ela própria, inclusive. Aí Elair voltou a chorar. E parou de comer. E parou de falar. E parou de chorar. E parou. Inapelavelmente, parou. Morreu na cama, cercada por um disco dos Mutantes, um quadro do Chaplin, fotografias melosas e uma caixinha de música, daquelas com uma bailarina triste dançando sempre a mesma música.

Elair foi encontrada, foi chorada, foi velada e foi sepultada. Paulo, que amava outras, também amava Elair. Amava ao ponto de chorar por ela. Amava ao ponto de ir ao enterro. Amava ao ponto de suportar o olhar de acusação, a revolta dos familiares, a dor duplicada de quem sofre pela morte de um ser amado e por ser o culpado dessa morte. Assassino.

Eustáquio amava a filha. Eustáquio odiava Paulo, que amava Elair e amava outras. Eustáquio caminhou com passos lentos na direção de Paulo. É engraçado: o que Eustáquio mais lembra daquele momento é o som da pá ao fundo. O som maligno de uma pá maligna de um coveiro malingno enterrando Elair, jogando Elair na escuridão eterna, tirando de Elair qualquer contato com o mundo que foi dela por 25 anos. E o coveiro indiferente, com sua pá indiferente, com seu cimento indiferente.

- Vai lá agora e pega tudo que for teu. Pega tu que tu deu pra ela. Eu não quero nada lá que me lembre que tu existiu - disse Eustáquio, com voz de pá, de cimento, de coveiro.

Paulo atendeu. Deixou o cemitério, subiu a rua de paralelepípedos, passou pela cerca branca, entrou pela porta dos fundos, explicou com os olhos a situação para a empregada, subiu as escadas.

Pegou um disco dos Mutantes.

Pegou um quadro do Chaplin.

Pegou fotografias melosas.

Pegou uma caixinha de música, daquelas com uma bailarina triste dançando sempre a mesma música.

Paulo sempre pensou sobre a última imagem que uma pessoa tem na cabeça antes de morrer. Sempre pensou que poderia ser uma bobagem: reparar em uma mancha na parede, esquecer de comprar a mostarda no supermercado, remoer a possibilidade de o lateral-direito do Colorado ser vendido justo agora, no meio do campeonato. Naquele momento, Paulo pensou no último pensamento. Pensou no que pensar antes de morrer. E não pensou mais. A faca Tramontina, recém-comprada, entrou reta, direta, abrindo espaço no pescoço dele como se fosse uma esponja.

Paulo caiu na cama. Morreu cercado por um disco dos Mutantes, um quadro do Chaplin, fotografias melosas e uma caixinha de música, daquelas com uma bailarina triste dançando sempre a mesma música.

Paulo morreu de amor. Morreu do amor que Elair sentiu por ele.

Amor é primo da morte,
e da morte vencedor,
por mais que o matem (e matam)
a cada instante de amor
Carlos Drummond de Andrade, "As sem-razões do amor"